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Estar bela, malhada, sentir-se bem consigo mesma. Não ter gordurinhas sobrando. Ter um corpo rígido, cabelos e pele impecáveis. Ser admirada por sua beleza ou por seu corpo em forma. Ter um corpo perfeito. Encaixar-se nos padrões de beleza massiicados. Cultuar o corpo, desejá-lo belo, mas, ao mesmo tempo, malhá-lo. Submetê-lo a esforços para que ele desabroche em sua melhor forma.

corpo

Estas falas apontam para um processo central das últimas décadas, que é o culto ao corpo. É possível afirmar que o corpo virou uma religião, um culto permanente e diário, que se desenrola nos templos de mármore, vidro e ferro das academias de ginástica, e cujos mentores são a mídia, os personal trainers, os nutricionistas, os cirurgiões plásticos e inúmeros outros proissionais que alardeiam a beleza enquanto capital simbólico.

A preocupação com o corpo, a importância que ele alcançou no mercado de trabalho, nas relações afetivas e na relação das mulheres consigo próprias e com os outros, e a existência de padrões corporais muito evidentes introduzem no sistema duas variáveis importantes: a competição e a cobrança social. O culto ao corpo já se tornou parte da nossa cultura, está ao nosso redor e nos suscita a pensar sobre ele, sob pena de sermos por ele tragados. É como se fôssemos livremente obrigados a fazer ginástica, cultuar a magreza  a  "malhação" e sonharmos com próteses de silicone. Além, é claro, de cabermos no tamanho "P.

As mulheres urbanas contemporâneas (e, cada vez mais, os homens, também), quando alcançam o corpo desejado (isto quer dizer "corpo magro e malhado”), sentem-se próximas ao mundo das mulheres que elas admiram e pertencentes a um grupo seleto, que é caracterizado, entre outras coisas, pelo poder "cuidar de si", pelo sinal de que "não se entregam às tentações alimentares de uma maneira desregrada". Enim, correspondem aos padrões corporais da sociedade em que vivem.

O corpo e a publicidade
É impossível dissociar, na contemporaneidade, os fenômenos do culto ao corpo e a importância da mídia. A comunicação está vivíssima, sendo a grande aliada e ao mesmo tempo veiculadora desta utopia do “corpo perfeito”.

As imagens têm um papel novo e central na cultura do consumo e, de tanto ver corpos malhados expostos nas revistas, na TV e nos ilmes, acostumamos a desejá-lo, e de tanto desejá-lo ele se tornou vital  para nós.

As revistas de “Estética, Beleza e Boa forma” são prenhes de imagens que priorizam corpos considerados bonitos. Além disto, é comum fotos que contrastam situações chamadas de “antes” e “depois”. As fotos do "antes” são imagens corporais de mulheres que eram “gordas e infelizes”; já as do “depois “ mostram imagens destas mesmas, agora “magras e bonitas”, através do produto x ou da clínica tal.

Auto-estima?
“Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da rejeição, nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho”

Na minha amostra com 80 mulheres, para 96% da amostra, fazer exercícios físicos mudou a auto-estima e para 84 % das entrevistadas, a “malhação interferiu nos outros  cuidados  consigo (como tratamentos estéticos, alimentação, vestuário, adesão a plásticas), o que mostra a forte associação entre malhação e auto-estima. Afirmam que fazer exercícios físicos faz com que elas se sintam mais bonitas, para si próprias, para os companheiros e para a sociedade em geral. Olhar-se no espelho e gostar da imagem reletida, sentir-se bem ao vestir uma roupa, perceber o corpo tomando nova forma depois das gestações faz com que as mulheres se sintam mais coniantes. A reabilitação do corpo constitui um dos aspectos mais importantes da vida privada, pois modiica a relação do indivíduo consigo mesmo e com os outros. Sentir-se bem consigo mesma torna-se questão de honra, e fazer exercícios é um mecanismo fundamental neste processo, que dá à mulher nova identidade, na medida em que a percepção de si mesma é indissociável da relação com o corpo.

Mas por outro lado, muitas airmaram que sabem que há um divórcio entre o corpo que elas elegem como bonito – o corpo magro e malhado - e aquele que os homens preferem: as mulheres mais “cheias” como, por exemplo, Vera Fischer. Nos questionários perguntei às mulheres para quem elas se produziam. 46% das mulheres entrevistadas assinalaram apenas para si mesmas; 19% assinalaram para si mesmas e para as outras mulheres; 14% assinalaram para os homens e para si mesmas e 21% assinalaram todas as opções.

Tal dado explica-se por causa da relação com a auto-estima, pelo prazer de ver seu corpo desabrochar. Poder fazer as pazes com o espelho e gostar-se, através da malhação. Uma pesquisa da Avon – grande empresa de cosméticos – obteve o mesmo dado: a maioria das mulheres entrevistadas disse que se embeleza para si própria, e apenas 19% disseram que se enfeitam para os outros. O que é enfatizado na matéria é o mesmo que se encontra nas falas das mulheres: é questão de auto-estima e, só conseqüentemente, de sedução. Aqui a auto-estima está diretamente ligada à própria construção da identidade, até porque com a ginástica, vêm também outros cuidados com o corpo, como tratamentos estéticos e alimentação, e tudo isso fará parte dos mecanismos de airmação e construção do eu. Mas, logo em seguida, aparecem os outros atores, a saber, os companheiros e as outras mulheres: é importante estar bem em primeiro lugar consigo, depois com o companheiro. E como as mulheres percebem a importância da beleza hoje para os relacionamentos afetivos, é preciso também agradar o parceiro, fazer com que ele se orgulhe de ter uma mulher bonita ao lado  e também estar menos vulnerável à  beleza  de outras potenciais parceiras.

Já a resposta à questão “para quem você acha que as outras mulheres malham?” apontou que 52% pensam que as mulheres malham em geral para as outras mulheres, 15% acreditam que a mulher malha para si, 13% entendem que elas malham para os homens e 20% marcaram todas as opções. Uma delas disse: “É, normalmente assim né, eu malho pra mim né? Agora, se eu for responder entre as outras mulheres, as mulheres se arrumam para as outras mulheres, depois elas se arrumam para os homens, por último elas se arrumam para elas mesmas. É um mundo de competitividade... É assim: icar parecido, ficar igual e também competir (...)” (Mulher 21, 44 anos).

Já que ter um corpo perfeito passa pelos mecanismos de aceitação da pessoa para o grupo e para si mesma, há a necessidade de se igualar a um padrão de corpo, mas ao mesmo tempo, como vivemos uma cultura da perfeição, também temos que nos destacar, é preciso ser melhor do que os outros e neste caso, melhor do que as outras mulheres, e isto passa por ter um corpo melhor do que o das outras. Orientados pela lógica do individualismo competitivo, se por um lado padronizamos o corpo, também queremos nos diferenciar e competir através dele.

Neste complexo jogo de relexos e espelhamentos, as outras mulheres se coniguram como um dos espelhos mais rigorosos. E os modelos que buscam alcançar também são os das outras, sejam elas atrizes, sejam modelos ou mesmo a colega “mais sarada”. A mulher é convertida em miragem, ela não é o que se vê, mas o que se quer ver.

Assim, o corpo esbelto, embora seja indicado pelas mulheres como um trunfo na conquista de parceiros, agrada menos aos homens e mais, às próprias mulheres, sendo alvo e mecanismo de competição entre elas.

Paradoxos
Vale lembrar também que se o culto ao corpo é importante para a auto estima feminina, por ouro lado, quando exagerado, leva a inúmeros problemas, como a anorexia e a bulimia (que atingem mais de 10% da minha amostra).

Isto leva a pensar que, como em qualquer processo, em especial aqueles que se desenvolvem sob as contradições de uma sociedade que se pretende moderna, o culto ao corpo traz em seu âmago conquistas e retrocessos por parte dos envolvidos no processo. Se ele é positivo porque restabelece os laços das mulheres com o que há de mais individual e primário, ou seja, o corpo, também representa inúmeros perigos.

A supremacia do corpo perfeito pode levar ao contrário da construção de uma identidade: ao aderir a modelos de beleza padronizados, pode ocorrer uma recusa do próprio corpo, caso ele não se encaixe nos modelos fornecidos; provoca também uma perda de identidade no sentido de que as marcas do tempo e das próprias características genéticas podem ser apagadas e reduzidas através de cirurgias plásticas, dissolvendo marcas constitutivas do eu e substituindo-as por formas e feições padronizadas.

Pode levar também à dissolução física total, gerando distúrbios alimentares que podem levar ao esfacelamento da personalidade e, em casos mais graves, á morte. E por im, o culto ao corpo contém em si um caráter de exclusão e desconiança com respeito àqueles que não se encaixam nestes padrões estéticos desta era.

 

 

 

 
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