|
Em homenagem ao mês das crianças, a Revista Samp preparou uma surpresa para seus leitores. Uma entrevista especial com Cristina Poli, conhecida como a Supernanny. Temas ligados a educação, valores, comportamento, entre outros, foram abordados. A argentina, que se tornou um fenômeno da TV brasileira, tem ajudado muitos pais com suas técnicas e habilidades de pedagoga, mãe e avó.
RS: Quem necessita mais de educação hoje: pais ou filhos? Cristina: Sem dúvida os pais. (Risos) Porque os filhos se "enquadram" tranquilamente, uns com mais diiculdade, outros com menos, nas mudanças que os pais realizam., na forma de encarar a disciplina, no comportamento e na organização da família. As mudanças que levo para os pais, se eles têm consciência daquilo que precisam fazer, ou apóiam ou discordam. Em resumo, as crianças não têm muita diiculdade de adaptação.
Com qual deles é mais difícil lidar durante a gravação dos programas? Qual a diferença entre ter autoridade e ser autoritário? A diferença é enorme. Porque autoridade é uma coisa que está com você, e que precisa ser exercida. As crianças reconhecem as pessoas que têm autoridade. A pessoa autoritária é completamente diferente. É alguém que grita, que se impõe pela força. Tenho encontrado muito mais pais autoritários do que com autoridade. Que querem se impor, mas não sabem como fazer isso, até porque têm dúvida da sua própria autoridade como pais. Durante muito tempo a relação entre pais e ilhos foi baseada no autoritarismo. Depois chegou à liberalidade. Hoje temos uma leva de ilhos autoritários.
Onde encontrar o equilíbrio? Isto é um trabalho de formiguinha, que se inicia com convicção e consciência. Creio que na hora em que os pais entendem que tem algo errado com os ilhos, não devem se culpar, mas introduzir as mudanças. Sempre dá tempo de corrigir aquilo que está errado. Isto é o que está acontecendo com estas famílias que pedem socorro. Estão vendo que aquilo que fazem com os ilhos, nem eles estão gostando e tão pouco agüentando, e pedem o socorro porque não sabem como proceder. O importante é não somente apontar o problema, mas sim sugerir uma solução.
O que você acredita que faça mais “estragos” no caráter da criança: os excessos ou as carências? Por quê? Acredito que tanto uma coisa quanto a outra são prejudiciais para as crianças. O ideal é que o pai possa encontrar o meio termo entre a “falta de” e o excesso. O que faz mais estragos nas crianças é aquilo que eles ouvem falar, mas não vêem praticar. Por exemplo, o pai que fala que não pode falar, mas fala palavrão, o pai que diz para não mentir e mente... Isso faz muito estrago. A criança ica confusa entre o discurso que ouve e aquilo que vê o pai, que é um modelo para ela, fazer. O mais importante é não causar confusão na cabeça dos ilhos, pois isso pode resultar num adulto com mente dupla, o que é muito ruim para a sua personalidade.
Você não teve uma Supernanny para te ajudar na educação de seus ilhos. Como foi criá-los? Tenho três filhos. Não tinha uma Supernanny, nem os métodos que alcancei por meio do programa e da revista, mas o que eu e meu marido possuíamos eram os princípios de realização, disciplina, responsabilidade, ordem e incentivo. Tudo isso fazia parte de nosso entendimento quanto à educação dos filhos. Não tínhamos a Supernanny, mas o que importava eram os princípios aplicados. Isso é o que desejo que ique com as famílias. Os princípios são importantes, para que possam ser aplicados em qualquer situação.
Muitas vezes ouvimos dizer que a casa dos avós é o lugar onde os netos são “estragados”, onde tudo é permitido e a correção não existe. Só que hoje em dia uma grande massa, senão a maioria das crianças, é cuidada pelos avós. O que você acha disto? Meu relacionamento com meus netos é do mesmo jeito. Creio que avó é para brincar, é para curtir os netos. A situação de ser avó é muito especial, mas eu continuo achando que a avó deve agir dentro dos princípios de ordem, disciplina e limites. Porque o limite junto com o amor gera um equilíbrio muito bom. Avó é para curtir os netos, mas também para ter a responsabilidade de não estragar a educação que os pais dão (risos). Sou muito colaboradora. Meus ilhos e minhas noras sabem, quando eles precisam me pedem ajuda, eu tenho ajudado, mas a gente os respeita.
Você afirma que “os pais não devem temer dizer ‘não’ para os filhos, ensinar-lhes regras e dar-lhes responsabilidades” Por que colocar isto em prática é tão difícil? Porque é muito mais cômodo concordar com tudo que a criança quedo que assumir a sua autoridade e responsabilidade. Muito mais cômodo chegar em casa cansada depois de um dia de trabalho e concordar com tudo que o ilho pede. Sem o trabalho de dizer “não”, colocar limites, pensar se o pedido do ilho é certo ou errado e transmitir isso para ele.
 Se esta situação não for revertida, onde você acha que a sociedade irá parar? Você airmou que ainda dá tempo de mudar. Como enxerga a sociedade dentro de mais duas ou três décadas? Sempre dá tempo se o pai percebe que existe algo para mudar. O primeiro passo é esse. O pai se conscientizar de que precisa mudar. O que a gente está vendo na sociedade, na juventude, de agressão, de violência, de tudo de ruim que está acontecendo, é um sinal de que é preciso tomar uma atitude, porque senão vai piorar cada vez mais. Às vezes, nem acredito naquilo que vejo e ouço. Os pais falam: “Ah, meu ilho já tem 13 ou 14 anos, já passou da idade”. Vai dar muito mais trabalho, sem dúvida, mas vale a pena tentar. Muitos pais que participaram do programa falaram para mim: “Se meu ilho continuar deste jeito vai virar um marginal. Eu não quero isto para ele”. É muito triste ouvir isso. Trabalho em escola com crianças a partir de um ano e meio até o terceiro colegial e a gente vê como é possível introduzir mudanças mesmo entre os adolescentes.
Você tem apenas duas semanas convivendo com a família, durante a gravação dos programas, para tentar ajudá-la a “pôr ordem na casa”. Como acredita que consegue isso? Deus está do meu lado me ajudando a fazer isso. Peço graça, sabedoria, as palavras e a direção certa para trabalhar com cada família. Até mesmo os pais, às vezes me perguntam: “Como foi que você conseguiu fazer isto com o meu ilho?” Digo que é algo divino.

“O que faz mais estragos nas crianças é aquilo que eles ouvem falar, mas não vêem praticar”
Como os pais podem se auto-afirmar? Primeiro, entendendo o que é autoridade. Que ela está com os pais e que precisam fazer uso dela. É um trabalho de conscientização. Depois que passo os métodos e as medidas para tomarem com as crianças, isso os ajuda a exercerem essa autoridade.Os pais precisam aprender a liberdade e espontaneidade das crianças com os ilhos. Elas são sinceras, abertas e livres, e isso é muito precioso. E os ilhos precisam aprender com os pais sobre caráter e a irmeza no que se faz. A convicção e o bom exemplo dos pais é que ensinam. Se você aprende isto com seus pais, com certeza vai ensinar para os seus filhos também.
Os pais também. Preciso convencê-los para que eles estejam do meu lado, no meu ponto de vista, para poder introduzir as mudanças. Se os pais não concordam, as coisas não acontecem. |